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Sexto Rodrigues - o folk perdido de Detroit

  • 4 de mai.
  • 3 min de leitura

Pegue uma máquina do tempo e vá para 1969, Detroit (EUC), num estúdio chamado Tera-Shirma. Foi lá onde Sexto Rodriguez gravou seu incrível disco "Cold Fact", em uma mesa de 8 pistas com poucos takes por faixa, sessões com energia ao vivo preservada intencionalmente. Recluso e preciso, Rodriguez gravou com um belo time de músicos incluindo Bob Babbitt no baixo e Andrew Smith na bateria (dois Funk Brothers da Motown), além da Orquestra Sinfônica de Detroit nas cordas. Para um artista folk desconhecido na época, era algo maior do que se espera. A mixagem final foi feita por Ray Hall (engenheiro de som de sessões com Charles Mingus e Herbie Hancock) nos estúdios da RCA em Nova York.


Cold Fact foi lançado em março de 1970 pelo selo Sussex Records, sob o catálogo SXBS 7000, distribuído pela Buddah Records. A capa trazia uma foto em preto e branco de Rodriguez de braços cruzados, chapéu e óculos escuros, fundo branco. Sem gatefold, sem grandes firulas. O lacquer foi cortado no lendário Sterling Sound que é respeitado até hoje, e a prensagem foi feita pela Sonic Recording Products. Tudo certo para um grande lançamento. Exceto que não foi.


Nos Estados Unidos, o disco vendeu menos de 100 cópias. Isso mesmo, menos de 100. O Sussex Records faliu pouco depois e Rodriguez voltou para um trabalho cotidiano em Detroit. Mas o vinil tem vida própria e é aí que a história fica mais interessante.


Em 1970, a Festival Records importou 400 cópias para a Austrália. Em 1971, a A&M Records lançou oficialmente o disco na África do Sul com o catálogo AMLS 67000. Ninguém sabe exatamente como chegou lá, provavelmente por importação informal, cópias que cruzaram oceanos nas malas de alguém. O que se sabe é que o disco encontrou um país machucado pelo apartheid, uma juventude com raiva e sem voz, e as letras de Rodriguez sobre desigualdade, decadência urbana e sistemas sociais podres, viraram um grito de resistência e voz de grupos. O regime sul-africano chegou a riscar fisicamente certas cópias para impedir que tocassem no rádio. Pior pra eles: isso só aumentou o culto e busca pelo álbum.


Em 1976, milhares de cópias de Cold Fact foram encontradas num armazém em Nova York e importadas para a Austrália, esgotando em semanas e chegando ao número 23 nas paradas, ficando 55 semanas no chart. O disco viajava. A prensagem original americana de 1970 (Sussex SXBS 7000, lacquer Sterling Sound, prensagem Sonic) é hoje um dos holy grails do mercado de colecionadores. Há cópias promo com adesivo "D.J. Copy — Not For Sale" que aparecem de vez em quando e somem rápido. As cópias sul-africanas de 1971 pela A&M têm seu próprio mercado, procuradas por quem quer a edição que de fato tocou nas casas e nas festas clandestinas da resistência.


2008 - a edição que selou a história


A redenção oficial veio em 2008, quando o selo americano Light In The Attic relançou Cold Fact remasterizado das fitas originais. Foi o primeiro lançamento em que Rodriguez recebeu royalties de verdade. Em 2013, o documentário Searching for Sugar Man ganhou o Oscar e o mundo inteiro correu pras lojas de disco.


A edição de vinil limitada foi prensada em 1.000 cópias numeradas à mão em vinil 180g preto. Cada cópia tem seu número escrito à mão no encarte, detalhe que hoje faz essa edição ser disputadíssima no mercado de discos de vinil. A embalagem é um capítulo à parte. O LP vem acondicionado numa capa estilo antigo (aquela capa grossa, sem brilho, colada à mão, igual às de 1970), com encarte interno contendo fotos inéditas, letras completas e liner notes detalhadas com entrevista ao Rodriguez.



O encarte foi escrito por Kevin "Sipreano" Howes com o título "Drop Out, Drop In: Rodriguez and His Music" — um ensaio que contextualizou a história do artista para toda uma nova geração. A edição também trouxe dois textos adicionais: "The Poet of Cass Corridor", escrito pelo próprio produtor do disco, Mike Theodore, e "Rodriguez: The South African Story", assinado por Stephen "Sugar" Segerman e Farell Russak.


O material fotográfico foi cedido pela família Rodriguez, pelos produtores Dennis Coffey e Mike Theodore, e pelo próprio Clarence Avant, fundador do Sussex Records. E tem mais: a edição limitada de vinil veio acompanhada de um compacto 7" bônus com faixas extras, detalhe que a maioria das pessoas não menciona e que faz dessa prensagem ainda mais especial para colecionadores.


Cold Fact tem 12 faixas em 32 minutos. Abre com "Sugar Man", ambientação orgânica, etérea, viciante e não para mais. "Crucify Your Mind", "I Wonder", "The Establishment Blues"são um folk sujo, com letras que parecem escritas atualmente.



Hoje o disco já teve edições nos EUA, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Venezuela, Rodésia e Reino Unido, um mapa de um disco que o mundo perdeu e depois foi procurar.


Sixto Rodriguez faleceu em agosto de 2023, aos 81 anos.

 
 
 

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